11 de julho de 2018 às 02:00

Musical 'Pacto' recria os bastidores e as motivações de 'crime do século'

No começo eram coisas simples, uns crimes bobos que não iam machucar ninguém." É com certa ternura que o jovem Nathan Leopold narra a escalada de delitos praticados por ele e pelo colega Richard Loeb na Chicago dos anos 1920.

No começo eram coisas simples, uns crimes bobos que não iam machucar ninguém." É com certa ternura que o jovem Nathan Leopold narra a escalada de delitos praticados por ele e pelo colega Richard Loeb na Chicago dos anos 1920.

De infrações pequenas, chegaram ao que ficou conhecido como crime do século: sequestraram e assassinaram Bobby Franks, um garoto de 14 anos e de família abastada.

Mas o que chocou a sociedade americana foi a motivação do crime: iludidos com o ideal do super-homem de Nietzsche, Leopold e Loeb, então com 19 e 18 anos, respectivamente, criam-se seres superiores, acima de qualquer lei.

São os motivos dos jovens que guiam "Thrill Me - The Leopold and Loeb Story", musical off-Broadway de Stephen Dolginoff que agora ganha a versão brasileira "Pacto: A História de Leopold e Loeb", com estreia nesta quarta (11).

A montagem foi idealizada pelos atores André Loddi â?”que atuara numa adaptação da peça cinco anos antes, no Rio e vive Loebâ?” e Leandro Luna (Leopold). Além de interpretarem a dupla, eles também assinam uma nova tradução do texto e das músicas.

"Estávamos tão imbuídos do trabalho que a versão anterior [para o português] não se encaixava bem", diz Luna.

Trata-se de um musical intimista, com apenas os dois em cena, acompanhados de um pianista (Andrei Presser).

O cenário é simples, composto de poucos elementos, como grades e cadeiras, e o espaço é contornado pela movimentação do elenco.

Como numa coreografia, os atores fazem gestos emotivos, como o segurar de um cigarro ou um movimento de mão, que ajudam a narrar a história. Um trabalho de mimese de Zé Henrique de Paula, que assina a direção da peça.

Apesar de não ser um musical "sung-through" (todo cantado), há uma transição fluida entre os diálogos e as canções, que por vezes soam quase faladas e não surgem como grandes números individuais.

A narrativa começa em 1958, com Leopold na prisão, interrogado por um comitê. Dali ele rememora os acontecimentos que levaram ao assassinato de Franks, 34 anos antes.

Amigos de escola, os criminosos nutrem uma relação de dependência e jogos de poder e sedução. Leopold é apaixonado por Loeb, que usa o amor do colega para convencê-lo a realizar seus desejos.

Vêm de berço endinheirado e boa educação, mas nem por isso de uma infância saudável. Leopold sofreu abuso por parte da governanta aos nove; Loeb, já quase adulto, conversava com bichinhos de pelúcia.

Decidem cometer pequenas contravenções, furtos de prataria, um incêndio de um galpão. Membros da elite e estudantes de direito, sentem-se acima de todos e das leis.

"Isso é uma grande insegurança dos dois, um problema de autoafirmação. O abandono que eles tiveram a vida toda explica isso", afirma Loddi.

Eles firmam a parceria num pacto, um contrato assinado a sangue, no qual Leopold se compromete a realizar as atrocidades de Loeb, e este aceita suprir os desejos do parceiro.

Até que Loeb decide ir além dos pequenos delitos. Um assassinato, diz, é uma "evolução lógica, um desafio". Como estariam acima da sociedade, esse seria o único crime digno de seus conhecimentos.

Escolhem um rapaz qualquer, já que o que importa não é a vítima, mas o ato criminoso em si. Planejam o que creem ser o crime perfeito, mas não é preciso dizer que logo são descobertos pela polícia.

Foi um caso de tanta repercussão que inspirou outras obras clássicas, como o romance "Estranha Compulsão" (1959), do jornalista Meyer Levin, e "Festim Diabólico" (1948), filme de Hitchcock.

O julgamento também se tornou um espetáculo midiático. Os jovens foram representados por Clarence Darrow, um dos maiores advogados de defesa da época. Ele surpreendeu ao fazer seus clientes se declararem culpados logo no início do caso.

Em vez de recorrer a uma justificativa de insanidade, defendeu que os jovens ignoravam o real significado da teoria nietzschiana â?”que fala do super-homem, ou além-do-homem ("Übermensch", no original alemão), não como alguém acima dos demais, mas como uma pessoa evoluída, que compreende a sociedade.

Segundo a defesa de Darrow, eles eram vítimas da sociedade. Afinal, aprenderam a filosofia na faculdade. Com isso, a dupla escapou da pena de morte, sentença então comum para assassinatos, e foi condenada à prisão perpétua.

Fonte: FOLHA

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